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Sem Sentido

Um blogue sem sentido... de humor!

03
Ago17

Drogados?! Mais vale suicidarem-se…

Droga.jpg

 

Resumo: O texto que se segue narra uma história real que ocorreu em maio de 2015 e que envolveu um casal recém-casado, um drogado e dois policias. Uma história que, ao contrário do que seria de adivinhar, terminou com um final feliz, mas não na ótica do(s) polícia(s).

 

Aviso: Este texto contém linguagem e/ou formas de pensar que pode(m) ferir a sensibilidade dos leitores, começando pelo título. E antes que pensem que o título (sugestivo) é uma ideia que surgiu na minha cabeça, leiam o texto até o final e deixem-se surpreender... ou não.

 

Era um domingo soalheiro, os ponteiros do relógio apontavam para os números 12 e 15, quando, de repente, sem eu estar nada à espera, o meu telemóvel começa a tocar, tinha eu acabado de chegar ao supermercado. Do outro lado, a voz ofegante de uma mulher tremendamente assustada:

 

«Está um homem cá em casa, sentado no canteiro, mesmo em frente à janela da sala de estar, com um ar desesperado e com um lençol amarrado à varanda do vizinho de cima. Acho que se vai enforcar…» – disse-me a mulher do outro lado que, por sinal, era a minha esposa.

 

Bem, neste momento, não pensei em mais nada. Desatei a correr do supermercado, em direção ao estacionamento, entrei no carro e, em menos de 10 minutos, estava eu à porta de casa.

 

[Só para que conste: O supermercado onde eu me encontrava ficava apenas a 800 metros da minha casa, mas acho que eu nunca tinha chegado tão rápido a casa (nem com tanto dinheiro) depois de uma ida ao supermercado.]

 

Cheguei a casa e lá estava ele, sentado, mesmo no meio do canteiro, em cima das ervas daninhas. Quero dizer, ervas daninhas eram o que lá estavam antes de os gatos (danados) decidirem ir fertilizar e irrigar o terreno há umas semanas atrás. Agora, eram mais plantas robustas e cortantes, dignas de uma floresta hostil, acabada de ser parcialmente desbravada por um ser humano que, no meio daquele matagal, até parecia ser uma flor de pessoa.

 

Da varanda do vizinho de cima, descia um lençol amarrado que terminava com uma imitação de um laço de forca. Sim, uma imitação, e muito má por sinal. Não é que eu seja um perito em laços de forca, mas via-se claramente que aquele laço nunca resultaria numa morte por enforcamento. Quando muito, resultaria numa queda que podia originar alguns cortes, isto se o indivíduo caísse em cheio dentro do canteiro. Enfim, digamos que a única coisa (aparentemente) original em todo aquele cenário forjado era a marca do lençol: United Colors of Benetton!

 

[Deve ter sido roubado, só pode.]

 

E eu?!

 

Confesso que, por momentos, ainda cheguei a pensar que estava a acabar de testemunhar um caso flagrante de infidelidade por parte da vizinha do piso de cima e que o indivíduo tinha simplesmente tentado fugir antes de cair dentro do meu canteiro, mas, assim que vi o aspeto do indivíduo, logo se esvaiu essa ideia da minha mente, se bem que ele estava sem camisa.

 

[A verdade é que há gostos para tudo.]

 

– Peço desculpa, mas... está tudo bem? – perguntei ao indivíduo, estava eu, ainda, do lado da estrada, com um muro a separar-nos.

 

– Se estivesse tudo bem eu não estava aqui. – respondeu-me o indivíduo, aparentemente de forma lúcida ou, pelo menos, bem mais lúcida do que aquela que eu devo ter aparentado quando decidi fazer aquela pergunta… estúpida.

 

– O que é que você está aqui a fazer? – perguntei, desta vez de forma bem mais erudita.

 

– Estou a pensar na vida. Estou todo f*d*d*!. – respondeu-me o indivíduo com toda a calma do mundo, parecia um vegetal.

 

[Confesso que em nada me surpreendeu esta reposta, nem pelo calão utilizado nem pela dedução lógica, pois, ou muito me engano ou, no lugar onde ele decidiu se sentar, estava uma das plantas mais robustas e cortantes que, para um simples leigo como eu, que pouco ou nada sabe sobre botânica, mais parecia um cato.]

 

– Pois, eu entendo perfeitamente, mas nesta casa moram pessoas (ainda que, pela aparência do canteiro, não pareça) e a minha mulher está lá dentro assustada. Não pode ir pensar na vida para outro lado? – retorqui.

 

– Fale mais baixo. – respondeu-me antes de decidir abandonar o canteiro, pular o muro e (supostamente) voltar para o seu habitat natural que, muito provavelmente, não será muito diferente do canteiro cá de casa num futuro muito próximo.

 

– Isto não é seu? – perguntei, ainda, apontando para o lençol.

 

– Não… – respondeu-me, já de costas voltadas, sem nunca me dar a oportunidade de eu lhe ver os olhos e de perceber se aquele “não” era sincero ou se o que ele queria mesmo era levar o lençol para outra casa habitada, animar a tarde dominial de uma outra qualquer família.

 

Conclusão: Acabei por chamar a polícia, como é óbvio, não pelo facto de eu achar que poderiam fazer algo mais útil do que aquilo que eu tinha acabado de fazer (expulsar um indivíduo da minha casa que não tinha sido convidado), mas pelo simples facto de eu não conseguir conter o meu orgulho de ter evitado um suicídio.

 

«Quem sabe, uma condecoração do Presidente da República, uma medalha de honra, um louvor público, ou então… um simples discurso de reconhecimento de dois policias.» – pensava eu.

 

«Mais valia ele ter se suicidado. Era menos um estorvo para a sociedade.» – afirmou um dos polícias, convencido de que acabara de proferir a solução para um dos males da nossa sociedade, que certamente não eram nem a ignorância nem o desprezo pela vida humana.

 

E foi neste exato momento que o meu orgulho caiu aos pés e foi chutado para bem longe:

 

Mas que raio de orgulho era este de eu ter evitado o suicídio de um indivíduo que não interessa nada para a sociedade?!... É que nem pintado de ouro se aquele indivíduo alguma vez seria uma joia de pessoa!

 

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