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Sem Sentido

Um blogue sem sentido... de humor!

26
Ago18

Dinheiro?! Quanto mais, pior...

Hiperinflação.jpg

 

Na Venezuela, gasta-se mais papel para produzir as notas de bolívar que são necessárias para comprar um rolo de papel higiénico do que para produzir o próprio rolo de papel higiénico. Parece estúpido e é mesmo. Mais estúpido do que isto só mesmo o facto de o Brasil ter começado a produzir notas de bolívar para exportar para a Venezuela. Enfim, a se confirmar a previsão do FMI para 2018, que aponta para uma inflação anual a rondar um milhão por cento, o mais provável é que as notas de bolívar comecem a ter o mesmo destino que o papel higiénico. Pena é que não tenham a mesma utilidade...

 

O papel-moeda foi criado com o objetivo de facilitar o dia-a-dia dos consumidores e dos demais agentes económicos, mas a verdade é que, ultimamente, só o tem dificultado. Aliás, não só tem dificultado como tem estado na origem das sucessivas crises económicas e financeiras que têm assolado a vida de milhares e milhões de pessoas, um pouco por todo o mundo. A atual crise económica na Venezuela é só mais um exemplo.

 

Na Venezuela, vivem-se tempos difíceis, com taxas de inflação surreais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a taxa de inflação da Venezuela deverá chegar a um milhão por cento em 2018. Sim, um milhão por cento, que é o mesmo que dizer que os preços dos bens deverão aumentar, em média, dez mil e uma vezes. Na prática, aquilo que custava um bolívar no início deste ano, deverá custar, em média, cerca de 10.001 bolívares no final do ano. Só para que tenhamos a noção dos preços que se praticam neste momento na Venezuela, na semana passada, num mercado em Caracas, um simples rolo de papel higiénico custava 2.600.000 bolívares. Ou seja, na Venezuela, gasta-se mais papel para produzir as notas de bolívar que são necessárias para comprar um rolo de papel higiénico do que para produzir o próprio rolo de papel higiénico. Parece estúpido e é mesmo. Mais estúpido do que isto só mesmo o facto de o Brasil  ter começado a produzir notas de bolívar para exportar para a Venezuela. Resta saber se a floresta da Amazónia dispõe de árvores suficientes para produzir as toneladas de papel que darão origem aos milhões e milhões de notas de bolívar que vão sendo necessários na Venezuela ou se desaparece do mapa ainda antes do final do ano. 

 

Como é óbvio, a partir do momento em que é necessário uma mala cheia de dinheiro para comprar um simples rolo de papel higiénico, não mais faz sentido a produção de papel-moeda, nem economicamente nem ecologicamente. Claro que os venezuelanos poderiam simplesmente andar com um livro de cheques em vez de andarem com malas cheias de dinheiro, mas num país onde um presidente é reeleito depois de o ter colocado numa crise profunda, não me parece que o nível de literacia da maioria dos venezuelanos seja suficientemente bom ao ponto de conseguir escrever por extenso um número com tantos zeros. Em Portugal, a maioria não o conseguiria.

 

Como é que se explica a hiperinflação que se vive na Venezuela?

 

Ora bem, de entre as muitas explicações que se podem dar, a principal tem que ver com a incompetência dos governantes da Venezuela, nomeadamente do presidente Nicolás Maduro. E não sou eu que o digo. É o próprio presidente da Venezuela que o diz:

 

«Os modelos produtivos que até agora temos testado fracassaram e a responsabilidade é nossa, é minha, é sua.»

 

Como é óbvio, um modelo produtivo que assenta na expropriação e nacionalização de centenas e centenas de empresas dos mais diversos setores de atividade – até mesmo do setor da alimentação, com a nacionalização de cadeias de supermercados –, onde as receitas do Estado provêm quase na sua totalidade do petróleo, mais cedo ou mais tarde haveria de fracassar. Aliás, este não era um modelo produtivo. Era um modelo destrutivo, como agora se veio a confirmar. E o pior é que não deverão haver mudanças significativas a este modelo que está a destruir por completo a economia venezuelana.  

 

Na segunda metade do século XVIII, Adam Smith, considerado por muitos o “pai” da economia moderna, defendia que o Estado deveria deixar os mercados funcionarem livremente e intervir o mínimo possível na economia, mas parece que Nicolás Maduro não leu a «Riqueza das Nações». Aliás, pelo que vejo, nem ler ele deve saber, quanto mais perceber de teoria económica. E este é, muito provavelmente, um dos maiores males dos políticos que nos governam, a seguir à corrupção e à satisfação dos seus próprios interesses.

 

E agora, como é que a Venezuela vai dar a volta a toda esta situação?

 

De acordo com o presidente da Venezuela, a reviravolta passa pela criação de uma nova moeda, o bolívar soberano, em que cada unidade corresponde a 100.000 unidades do bolívar antigo, o bolívar forte, uma moeda que, aliás, já está em circulação. Como é óbvio, a criação do bolívar soberano não vai resolver o problema da hiperinflação na Venezuela, pois não é diminuindo o número zeros de uma moeda que se faz com que a inflação diminua, mas, uma vez mais, como a inteligência de Nicolás Maduro fica muito a dever à literacia económica, o presidente da Venezuela só vai perceber que este não é o caminho quando, no seu cofre pessoal, não couber a totalidade das notas de bolívar (soberano) que serão necessárias para ele comprar um rolo de papel higiénico.

 

Enfim, a se confirmar a previsão do FMI para 2018, que aponta para uma inflação anual a rondar um milhão por cento, o mais provável é que as notas de bolívar comecem a ter o mesmo destino que o papel higiénico. Pena é que não tenham a mesma utilidade. E é por isso que eu sugiro ao Banco Central da Venezuela: façam-nas mais finas e macias!

 

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